A CIGARRA E A FORMIGA
Adaptado por Júlio César Zanluca
Era uma vez uma formiga que trabalhava no duro, de sol a sol, construindo sua toca e acumulando suprimentos para o longo inverno que se aproximava. Pagava pontualmente seus impostos, apesar de que, no Reino da Corte, a taxa equivalia a 40% de toda a produção.
A cigarra pensou: "Que idiota!" E passou o verão dando gargalhadas, cantando e dançando como nunca. Afinal, pra que trabalhar se o Reino da Corte lhe pagava uma “bolsa-eleitoral da miséria”?
Ao chegar o inverno, a cigarra, tremendo de frio, armou uma barraca de lona na entrada da toca da formiga e convocou toda a imprensa para uma entrevista e exigiu explicações: Porque é permitido á formiga, uma toca aquecida e boa alimentação, enquanto as cigarras estão expostas ao frio e a morrer á fome?
Todos os órgãos de imprensa compareceram à entrevista; tiraram muitas fotos da
cigarra trêmula de frio e com sinais de desnutrição. As imagens dramáticas na
televisão mostraram uma cigarra em deplorável condição, sentada num banquinho
debaixo de uma barraca de plástico preto e mais adiante mostraram a formiga em
sua toca confortável, com uma mesa farta e variada. O povo ficou perplexo e
chocado com o contraste.
A notícia recebe apoio imediato, com a ressalva de que os recursos devem ser
dirigidos ao programa Fome Zero do governo, e cogita uma Emenda Constitucional
que aumente os impostos para as formigas e ainda obriga as comunidades a
promover a integração social das cigarras.
A Polícia da Coroa, com base em um Mandato Judicial de um juiz de plantão, invadiu a toca da formiga, com base em uma suposta denúncia de sonegação de impostos.
A formiga é multada por supostamente não entregar a sua quota de folhas verdes ao Ministério das Folhas e não tendo como pagar todos os impostos e contribuições que foram apurados retroativamente, pede falência. Caso não pagar, irá para a cadeia.
A Câmara instala uma comissão de inquérito para investigar a falência
fraudulenta de inúmeras formigas abastadas. O Ministério das Folhas nomeia uma
comissão de auditores fiscais suspeitando de que as formigas tenham desviado
recursos do FF5 (Folhas Frescas nº 5 do Banco Central) e suspeitas de lavar
folhas.
A cigarra decide invadir a toca da formiga e lá acampa. A formiga pede ajuda da
polícia e esta informa que não dispõe de efetivo para atender ocorrências desta
natureza e que também por orientação do Secretário de Segurança que deseja
evitar confrontos com os "Sem Toca".
A formiga entra na justiça para obter a reintegração da toca, mas é negado, o
juiz invocou um novo ramo do direito, "O Social-Solidário" e sentencia que a
formiga não provou a produtividade da toca (apesar de ter pago 40% de tributos
sobre a produção). O Ministério da Reforma Agrária desapropria a toca da
formiga, por não cumprir a sua função social, e entrega-a á friorenta e
desnutrida cigarra.
O Ministério da Justiça descobriu que a cigarra foi presa no passado, por
promover algumas greves, assaltos e sequestros (aliás chamados de "crimes
políticos"), e conseguiu a sua inclusão no grupo dos perseguidos políticos com
direito à indenização federal e pensão vitalícia. E o verão está de volta. As
formigas trabalham e as cigarras cantam e dançam...